Abundam por todo o Mundo situações conflituosas, em alguns casos verdadeiras guerras, aos quais já nos habituámos que durem e durem por muitos anos e persistam sem solução à vista. Fala-se em alguns desses casos de “conflitos congelados” e quase se deixou de procurar para eles resolução que dê resposta equilibrada aos vários interesses pendentes. Entre esses casos avulta a confrontação israelo-árabe, que presentemente conhece uma crise muito séria, a qual ameaça pôr em risco a estabilidade do Médio Oriente e até do Mundo inteiro, tantas são as paixões que à volta dela se despertam.

Não vale a pena elencar agora todas as razões de fundo por ambas as partes invocadas. Durante a minha permanência na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa segui de perto este problema, conversei com pessoas de ambos os lados e até fiz amizade com algumas delas, visitei o local, em Março de 1996, onde pude conhecer já no exercício de funções o então e actual Primeiro Ministro de Israel- e permaneci nele alguns dias mais para percorrer sossegadamente os lugares sagrados da Terra Santa, uma experiência deveras gratificante, que tenho recomendado a muita gente.

No que toca ao conflito, ele radica na instalação do Estado de Israel, por decisão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, adoptada em 1947, em territórios habitados pelos palestinianos; a partição da Palestina nunca foi aceite pelos árabes e consta mesmo que o Rei Saud chegou a sugerir ao Presidente americano que os judeus perseguidos pelo nazismo e os sobreviventes do Holocausto fossem acolhidos em estado próprio dentro dos Estados Unidos a América. Também se podia trazer aqui à colação os acordos secretos tentados pelo Governo Britânico para que tal estado fosse situado na colónia então portuguesa de Angola…

Por seu turno, tampouco os responsáveis israelitas respeitam os termos da partição do território e têm feito avançar o seu domínio sobre áreas em princípio destinadas aos palestinianos. Os acordos tentados para garantir a paz são sistematicamente violados por ambas as partes envolvidas. E assim Israel transferiu a sua capital de Telavive para Jerusalém e está a instalar colonatos em terras supostamente atribuídas à Autoridade Nacional Palestiniana, cuja Assembleia Legislativa visitei em Ramallah e pude também cumprimentar o Presidente Mamude Abbas uma vez em Estrasburgo. Infelizmente a ANP não garante a regularidade das eleições, nem a extensão do seu poder democrático, desafiado permanentemente pelo Hamas, que se fez eleger como governo alternativo na Faixa de Gaza, nem sequer a lisura do seu funcionamento institucional.

As sucessivas Intifadas, guerras lutadas à pedrada pelos jovens palestinianos desesperados, não contribuem para aproximar as duas comunidades, antes pelo contrário. Acresce a prática do terrorismo, promovida pelo lado palestiniano, com os “mártires” de coletes carregados de explosivos ou simplesmente esfaqueando pacatos cidadãos pelas ruas de Israel.

Há um louco ódio acumulado entre as duas partes, que dificulta senão impede mesmo o diálogo. Os que o têm tentado são logo acoimados de traidores pelos mais radicais e põem mesmo a sua vida em risco. Lembre-se o que aconteceu ao então Primeiro Ministro de Israel, Isaque Rabin, assassinado sem dó nem piedade no decorrer de um acto público, ele que fora um dos negociadores dos Acordos de Camp David, promovidos pelo então Presidente americano, na mira de se obter a paz a troco de garantias de posse de território pelos palestinianos, apontando-se para a futura instauração de dois estados separados e iguais. Estive nessa altura na Sinagoga de Lisboa, em representação da Assembleia da República, para a cerimónia solene de homenagem à memória do dirigente assassinado.

Nos dias que estão correndo, Israel foi atacado por grupos armados provenientes da Faixa de Gaza, que mataram cidadãos inocentes e raptaram violentamente velhos, mulheres e crianças, arrastando todos para os seus esconderijos, para deles se servirem como reféns. Declarando-se em estado de guerra e a benefício da simpatia geral da opinião pública mundial perante a traiçoeira incursão, Israel está abatendo sobre a Faixa de Gaza todo o seu poder militar, causando destruições e mortes sem quaisquer contemplações. Conforme tem sido lembrado, a dita Faixa é um corredor com 40 quilómetros de comprimento e 6 de largura, onde vivem, uns por cima dos outros, cercados e boicotados, por terra, mar e ar, dois milhões e meio de pessoas; e a totalidade do território disputado entre o Estado de Israel e os palestinianos anda perto das dimensões do Alentejo… É de temer um verdadeiro drama humano, de dimensões chocantes, senão houver uma rápida intermediação, que várias entidades estão tentando, incluindo a ONU e a Liga Árabe.

Poderá daqui sair alguma modificação que permita encarar a definitiva solução do conflito? Duvido muito! Nas conversas que tive com os responsáveis de ambos os lados, já lá vão alguns anos, reconheço, verifiquei enquistamentos sobre problemas insolúveis. Por exemplo, alguns palestinianos ainda guardam a chave da casa de onde foram expulsos os seus antepassados em 1947 e querem que elas lhes sejam devolvidas, quando o mais provável é que nem sequer existam já, substituídas por modernas moradias ou até por prédios de apartamentos…

A aceitação mútua e a compreensão dos pontos de vista de cada parte, bem como a busca de entendimentos e soluções alternativas, são desejáveis e mesmo imperiosos, embora muito difíceis. De ambos os lados é preciso convencerem-se que têm de viver juntos e tentar entenderem-se e ser felizes, respeitando-se. Oxalá consigam! Até lá, o eclodir de violência continuará a ocorrer, sem outro resultado que não seja o acumular de ódio e radicalismo.

João Bosco Mota Amaral